Sem Tensão, Só Cautela

Mercado doméstico deve garantir expansão do comércio brasileiro mais uma vez apesar da crise internacional.

Motor da Economia

Os tempos são outros. E, mesmo que mais modestamente, o Brasil deve manter a trajetória de desenvolvimento, apesar dos solavancos da crise internacional, agora na Europa, onde os países terão de mostrar como fechar as contas resultantes de uma política insustentável, assim como aconteceu em 2008, nos Estados Unidos, com os bancos.
Naquela ocasião, o País se recompôs rapidamente da avalanche de más notícias que costuma azedar o humor do consumidor e revelou ao mundo que nada mais seria como antes. O mercado interno, então, se mostrou não só a tábua de salvação da economia doméstica como despertou ainda mais a cobiça de investidores internacionais. Não deve ser diferente em 2012.

Embora a intenção de compra dos brasileiros esteja menor, trata-se de uma desaceleração esperada. O consumo das famílias – item que contribui com cerca de 60% do Produto Interno Bruto brasileiro – tem arrefecido em consequência da elevada base de 2010, quando cresceu mais de 10% sobre o ano anterior, como ocorre tradicionalmente em ano de Copa do Mundo de Futebol, além de outros dois acontecimentos que marcaram 2011: a ameaça da inflação e o índice de endividamento provocado pela menor renda real. Essa combinação de fatores leva a crer que a expansão poderá variar entre 5% e 7%, tanto no fechamento do ano passado quanto no deste ano. Ninguém arrisca cravar um percentual, mas trata-se de um avanço considerável.

“O ambiente externo é instável, mas o Brasil está mais preparado”, diz o professor Claudio Felisoni, coordenador do Programa de Administração de Varejo (Provar/Ibevar) da FIA-USP. “É preciso, porém, ficar atento, pois essa questão política é complexa e deve ir longe”.

SEM SURPRESAS

Independentemente do desfecho da crise que abate, por enquanto, Espanha, Portugal, Grécia e Itália (e respinga na Alemanha), o varejo tem demonstrado bases sólidas nos últimos oitos anos, com crescimento de 3,5 pontos percentuais acima do PIB nesse período. “O consumo de massa responde por dois terços do mercado interno e a formalização do emprego, e o acesso ao crédito, inclusive ao imobiliário, deram vazão a uma demanda de extrema importância”, afirma o presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), Fernando de Castro. A entidade reúne as principais empresas do setor.

Na avaliação de Castro, a manutenção de crescimento está garantida também pela competência de todo o time por trás das gôndolas. “O comércio está capacitado para concorrer globalmente e regionalmente, com tecnologia e segmentação suficientes para atender a clientes mais específicos”.

Trata-se de uma realidade que ganha corpo com a redução da informalidade no País, conforme destaca o consultor Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral da GS&MD. “A formalização fiscal e trabalhista vai desenhar uma nova estrutura para o setor, principalmente em áreas mais pulverizadas.” Essa profissionalização do mercado deve aumentar o número de fusões e aquisições.

Outra tendência apontada por ele é o ingresso mais veloz de recursos estrangeiros no Brasil. Com a crise lá fora, o apetite de investidores americanos, mexicanos e chilenos, além é claro dos chineses, e tantos outros, se intensifica. Movimentos assim têm fatores positivos, com a geração de emprego e renda, e, consequentemente, o aumento do consumo. Mas o outro lado da moeda é uma concorrência nem sempre saudável com a indústria brasileira que, por sua vez, procura estreitar as relações diretas com o consumidor – um ser em constante mutação.

DÍVIDAS

Apesar de recorde, o nível de endividamento no Brasil ainda é relativamente baixo quando comparado com o de outros países.

CRÉDITO

O volume de recursos destinados a pessoas físicas alcançou R$ 498,8 bilhões no acumulado do ano até outubro e mantém trajetória de crescimento nominal.

FORMALIDADE

Até outubro de 2011 o recolhimento de impostos federais cresceu 12,23%, para R$ 794,3 bilhões, em relação a igual período do ano anterior.

INTERNET POPULAR

Mudanças sociodemográficas resultantes do ingresso de 40 milhões de pessoas na classe C nos últimos anos vieram acompanhadas de inclusão digital e bancária, que somadas aos programas do governo federal, como o Luz para Todos, impulsionaram diversos segmentos, mas fundamentalmente o de eletroeletrônicos, líder no ranking de vendas do comércio eletrônico. A internet de fato tem atuado como coadjuvante de um varejo agora multiformato.

O varejo tem crescido 3,5 pontos percentuais acima do PIB brasileiro nos últimos 8 anos

Não se trata de uma evolução do passado, mas de uma revolução sobre o passado. Isso porque coloca o consumidor no epicentro de todo o processo de transformação de mercado, integrando de forma virtuosa todos os canais de relacionamento, promoção, serviços e vendas.

Para acompanhar esse ritmo frenético o varejo precisa identificar o perfil exato de cada público que quer atingir. Segmentação estabelecida, é preciso destacar a marca e encantar os clientes com mercadorias e serviços pelos mais diversos canais e formatos. E tão importante quanto oferecer opções é a integração entre eles, além da comunicação bem feita.

Por isso o ano será marcado pela arrumação feita em 2011, que visou a profissionalizar e simplificar a gestão dos maiores grupos do País. Tudo para que a janela de oportunidades aberta pelo momento ímpar da economia brasileira se desdobre agora em novos negócios.

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