domingo 23 Abr 2017

BRF na Argentina

Companhia reinventa a operação no país vizinho e, pela primeira vez, contará com uma subsidiária estrangeira liderada por um CEO local

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No início de junho, a BRF assumiu o controle da Quickfood, uma fabricante de alimentos processados de carne na Argentina. Fruto do acordo de troca de ativos com a Marfrig, a transferência da Quickfood marca o início de uma nova etapa da empresa brasileira no país vizinho.

Há menos de um ano, a operação da BRF no país comportava duas empresas: a Sadia Argentina, que importa produtos do Brasil, e a Levino Zaccardi, que fabrica queijos para exportação ao nosso país. De lá para cá, foram incorporadas as argentinas Avex, que vende frangos inteiros e em partes, e Dánica, líder do mercado local de margarina. Com a Quickfood, dona da marca Paty, líder em hambúrgueres, a BRF passou a conduzir cinco empresas, com nove fábricas e mais de 20 centros de distribuição refrigerados.

Empresa Atividade
Avex Abate e vende frangos
Dánica Líder em margarina, vice-líder em molhos, fabrica massas e óleos de cozinha. Tem duas fábricas e 22 centros de distribuição refrigerados.
Levino Zaccardi Exporta queijos para o Brasil. Tem uma fábrica.
Quickfood Líder em hambúrguer com a marca Paty. Tem quatro fábricas. A operação de frigoríficos permanece com o Marfrig.
Sadia Argentina Importa alimentos do Brasil.

 Para dar conta do crescimento acelerado, a BRF experimenta um novo modelo de gestão dos negócios internacionais, que inclui as atividades de um CEO local. A missão na Argentina foi atribuída ao executivo brasileiro Nelson Vaz Hacklauer, até então vice-presidente de Estratégia, Projetos e Novos Negócios.

Administrador de empresas, prestes a completar 30 anos de companhia, Hacklauer vai viver em permanente ponte aérea entre Buenos Aires e São Paulo. Aqui, continua responsável pelo negócio de Bovinos da BRF. Ele conta suas expectativas em relação à nova tarefa nesta entrevista concedida às vésperas de assumir a Quickfood. “Meu desafio é transformar cinco empresas numa só”, diz.

Nelson: Vou levar uma vida independente na Argentina e outra no Brasil

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 Por que um CEO local?

Esta é a primeira empresa de porte que a BRF constrói fora do Brasil. Contamos com cerca de 3 mil funcionários e uma receita de US$ 700 milhões por ano. Temos sócios locais e precisamos negociar muito bem internamente. A Quickfood é uma empresa aberta, com ações negociadas em bolsa. Na realidade, faço parte de um laboratório. Estamos montando um modelo de governança que poderá ser estendido para outros países.

Qual seu maior desafio no momento?

Adequar culturas diferentes. São sistemas diferentes, processos diferentes, locais diferentes. Estabelecer a governança será desafiador. Temos de ver os interesses dos sócios, olhar o lado fiscal. Por outro lado, estou assumindo marcas boas, rentáveis. Dánica e Paty são líderes de mercado, tradicionais e sinônimo de categoria. O argentino diz “Vou comer um Paty” quando quer um hambúrguer. As marcas precisam apenas de uma rejuvenescida. E quero preservar a essência argentina do negócio.

Como o senhor vê o novo desenho da BRF na Argentina?

Estamos estudando a unificação de todas as empresas, com exceção da Quickfood, que, por um tempo, vai continuar separada. Vamos em direção de uma companhia de participações, dona das empresas operacionais. Lá no futuro, teremos 67% de tudo, com 33% nas mãos de sócios argentinos.

O senhor cuida do negócio de bovinos no Brasil. A BRF vai criar bois na Argentina?

Hoje não temos criação na Argentina nem trabalhamos com esse objetivo. Conto apenas com uma unidade de abate, que produz um terço da matéria-prima de que preciso para fazer hambúrguer.

Estou no negócio de bovinos, processados e carne in natura. É interessante quando somamos a rentabilidade dos produtos processados e do abate. Mas, conceitualmente, acho que parte da matéria-prima pode vir de um sistema próprio. O pecuarista hoje ganha dinheiro na Argentina.

Como foi para o argentino trabalhar para um brasileiro? O senhor sentiu o choque cultural?

Fui muito bem recebido. Há cerca de um mês vou lá direto, e estou absolutamente satisfeito com o clima de trabalho. As pessoas começam o expediente às 7h30 da manhã e muitas vezes vão até 8h30 da noite. O pessoal gosta da BRF. Quem está no setor já a conhecia como uma das maiores empresas de alimentos processados do mundo. E eles acreditam que, com a BRF, as coisas vão começar a acontecer. Estamos nos dando maravilhosamente bem.

Com as mudanças, onde o senhor tem trabalhado?

Estamos ajustando a estrutura e logo teremos o organograma aprovado. Nosso escritório, localizado em Munro, vai se chamar Urbana. Será um escritório maravilhoso, nas imediações de Buenos Aires, com paredes de vidro, salas coloridas e móveis brancos.

O senhor pretende levar brasileiros para lá?

Conceitualmente, gostaria de tocar a operação com argentinos, para ser o mais independente possível.

Com responsabilidades ali e aqui, como vai ficar sua vida?

Meu planejamento é ter uma vida independente lá e outra aqui. Tenho netos aqui, minha mulher e eu queremos vê-los. Estamos procurando um apartamento mobiliado em Buenos Aires. Vou continuar vindo uma vez por semana. Na sexta-feira, dou expediente em São Paulo. E pego um avião de volta no domingo à noite ou segunda de manhã.

Operação Argentina    

Com as aquisições aprovadas pelo Cade, a BRF passa a atuar com cinco empresas na Argentina, que serão unificadas pelo CEO local.

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