sábado 24 Jun 2017

A Arte do Equilíbrio

Executivos e operários contam como conseguem conciliar carreira e vida pessoal.

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Que ou quem se revela hábil para tratar situações difíceis, para controlar situações adversas”. Essa é a definição do dicionário Houaiss para “equilibrista”, no sentido figurado. No cotidiano, a palavra pode muito bem ser aplicada como adjetivo para aqueles que conseguem conciliar bem carreira e vida pessoal. Encontrar a medida ideal é a busca tanto de homens quanto de mulheres, em uma época em que as ambições, bem como a crença de que não basta ter sucesso profissional, não têm mais gênero. É preciso também ter qualidade de vida. E o que é qualidade de vida? Para a maioria é equilibrar-se entre profissão, família, amigos e desejos pessoais.

Disciplina e paixão

Filho de imigrantes espanhóis e italianos, Luiz Henrique Lissoni estudou grande parte da vida em escolas católicas jesuítas, diferentemente de sua mãe não alfabetizada. A disciplina, portanto, esteve presente em seu dia a dia desde muito cedo. “As rotinas eram duras, pois havia hora certa para as orações, para o hino nacional e o uniforme devia estar impecável”, recorda o atual vice-presidente de Supply Chain da BRF.

Além da disciplina, faz parte de sua receita pessoal a paixão. “É preciso ser passional. Sou um eterno apaixonado pelo meu trabalho, pela minha mulher, pelos filhos, pelas coisas que eu me disponho a fazer. Sem paixão a vida é triste, vazia”.

Esses princípios básicos foram importantes na construção de sua carreira, embora a vida hoje seja muito diferente. “Quando comecei o trabalho no ramo de alimentos não tinha sábado livre, e dobrava o turno em épocas em que os demais descansavam, como Natal e Ano-Novo”.

Para Luiz Henrique, “o sucesso está no malabarismo de cinco bolas: trabalho, amigos, família, saúde e o eu espiritual. Algumas delas são de vidro, se caírem quebram de forma irrecuperável, outras são de borracha, pulam e voltam. Cabe a cada um de nós entender qual é qual”.

Ter apoio de uma equipe competente também faz diferença. “É importante somar as competências, formar um time forte, equilibrado. Assim conseguimos jantar com a família na hora do jantar de fato, compartilhar os feitos e desafios com a esposa, ouvir dos filhos as histórias do dia”.

Fora do trabalho, o executivo busca se revigorar no contato com a natureza. Luiz Henrique faz trilhas off-road de moto ou com um 4×4, nas serras da Canastra, Bocaina e Mantiqueira, na África, no Atacama e até no Alasca. “Ou simplesmente pego a moto e saio pela rodovia Castelo Branco, em São Paulo, para respirar o ar fresco da noite. Isso me dá forças para tomar decisões difíceis como recusar uma promoção no México para ficar mais perto da minha filha mais velha, que não me acompanharia”, conta. “Abri mão de um pulo na minha carreira na época e, o que inicialmente pareceu uma perda, foi recompensado, pois nos aproximamos muito e novas, e melhores, oportunidades de trabalho apareceram finalmente! A expatriação quebraria o equilíbrio familiar naquele período”.

“Simplesmente quebrar a rotina, ficar quieto por alguns instantes já ajuda. De um jeito ou de outro tudo se resolve. O importante é estar feliz fazendo o que dá prazer, junto de quem é importante”.

Luiz Henrique Lissoni, vice-presidente de Supply Chain da BRF

Tempo para viajar

Em 2007, Fabricio Pereira Leite, que já havia trancado a faculdade no Rio Grande do Sul para ganhar fluência no inglês em Chicago, nos Estados Unidos, trabalhava na operação africana da Perdigão a partir de Dubai, nos Emirados Árabes. Três anos depois, foi um dos primeiros da companhia – que, após a fusão com a Sadia, em 2009, passou a se chamar BRF – a desembarcar na África do Sul para a abertura de um escritório em Joanesburgo.

Hoje, Fabricio, 35 anos, trabalha como gerente regional de vendas para a África e mora na maior cidade do país com a esposa e dois filhos pequenos – uma menina de dois anos, que nasceu em Dubai, e um garoto de um ano, nascido em solo africano.

Apesar de já ter conhecido e vivido em muitos lugares diferentes, o executivo quer mais. Para Fabricio, uma das principais motivações para batalhar e conciliar ascensão profissional e qualidade de vida é ter tempo e dinheiro para viajar e descansar com a família. O executivo se organiza para tirar férias duas vezes ao ano e poder conhecer novas culturas ou simplesmente relaxar. Procura também aproveitar os finais de semana para realizar pequenas viagens.
Fabricio também mantém a casa no Brasil, embora não tenha planos de voltar a morar no país, onde costuma passar duas semanas por ano.

Estar fora do país também trouxe a possibilidade de morar perto do trabalho e almoçar frequentemente com a mulher. “Sempre marcamos em algum restaurante próximo ao escritório da BRF”. E ainda sobra tempo para a academia, em que costuma praticar esteira e remo, das 6h30 às 7h30 diariamente. “Não troco esse ritmo por nada”, afirma Fabricio. “O trabalho não pode ser um fardo”.

Perseverança é paciência

A rotina é intensa. Miguel Angel Bermejo, diretor regional de RH do Grand Hyatt São Paulo, começa a responder e-mails que recebeu durante a noite, de diversas partes do mundo onde sua empresa mantém negócios, ainda em sua casa, logo cedo. No escritório, seguem-se reuniões, conference calls e encontros com colegas de trabalho. Mesmo depois do expediente não é raro continuar a trabalhar. “Acredito que a tecnologia veio para facilitar a nossa vida. Às vezes até consigo responder algumas coisas em uma parada da bicicleta.”

Miguel também consegue ganhar tempo fazendo as refeições no próprio hotel. “Por sorte, temos um restaurante de colaboradores que serve refeições equilibradas, o que me permite manter uma alimentação saudável”, diz o executivo, que está há 20 anos no Hyatt, com períodos em unidades do grupo no Chile e na Espanha.

Nos finais de semana, pratica mountain bike com a Tribo do Pedal Selvagem, em Mairiporã. Quando não consegue ir até lá, pedala pela ciclovia de São Paulo. “Claro que não é a mesma sensação, mas ajuda. Gosto também muito de ir ao cinema, ao teatro, de ler e de outros esportes de aventura, como o balonismo”, conta Miguel. Separado, tem namorada e é pai de uma garota de 20 anos.

De cima para baixo, Sandra Maria Pinto, funcionária da BRF em Videira; Fabricio Pereira Leite, gerente regional de vendas da BRF para a África; Miguel Angel Bermejo, diretor regional de RH do Grand Hyatt São Paulo

Conciliar todas essas atividades nem sempre é fácil, mas é possível. “Antigamente, era bem mais difícil porque eu não conseguia dar prioridade às coisas que realmente importam. Hoje, consigo coordenar todas as minhas atividades, e parece que o dia é bem mais longo do que era antes”, diz o executivo, ressaltando que mesmo durante algumas viagens a negócio consegue prolongar sua estadia para “aproveitar um pouco mais com meus entes queridos”. Sua filha, por exemplo, faz faculdade no Chile e se prepara para ir à Espanha terminar os estudos, seguindo a mesma trilha do pai.
Mais do que organização, segundo Miguel, é essencial paixão pelo trabalho, que ocupa grande parte da vida. “Quando você escolhe como profissão aquilo que ama, tem qualidade de vida”, acredita o executivo. Mas não só. “Hoje em dia, os jovens acreditam que carreira deve ser seguida de promoções de curto prazo, porém o que te faz mais forte como profissional são as mesmas virtudes das culturas milenares. Perseverança é paciência. Ao longo dos anos, trabalhando em diversos países, aprendi a esperar pelas oportunidades no momento certo e aproveitar a companhia daqueles que cruzam meu caminho. Aprender com esses momentos me tornou um profissional mais completo.”

Divisão de tarefas

Mesmo durante a semana, Sandra Maria Pinto, 37, faz questão de reservar uma hora para seu hobby preferido: caminhar. E sempre que pode leva junto os filhos, Michel, de 7 anos, Leonardo, de 9, e Eduardo, de 18. Também costuma tomar sorvete com os filhos depois do trabalho e ainda organiza festinhas nos finais de semana para reunir os amigos.

Para tanto conta com muita disciplina e a ajuda de Marcos Fumagalli, com quem é casada há 20 anos. “Meu marido é muito consciente”. Os dois se conheceram na unidade da BRF em
Videira, Santa Catarina, onde trabalham até hoje. Ela, das 7h00 às 17h00, e ele, das 4h00 às 13h48.

Na rotina familiar, os dois filhos mais novos estudam um pela manhã e o outro à tarde. O mais velho trabalha na BRF. Desde pequenos, os meninos foram educados para ser independentes e também para ajudar uns aos outros. Mesmo os menores sabem a hora de tomar banho e se trocar para ir à escola, e também como esquentar a própria comida, cuidadosamente arrumada em pratos individuais preparados antecipadamente por Sandra. “Eles sabem que precisamos trabalhar e aprenderam a tomar decisões sozinhos logo cedo”.

As tarefas domésticas são divididas entre ela, o marido e os filhos. “Claro que às vezes preciso dar um puxão de orelha nos meninos, mas eles sabem que, se não ajudarem, não consigo vencer e não teremos tempo para lazer.”
O fato de morar há 10 minutos do trabalho facilita bastante. Mas o principal, garante Sandra, é a união familiar.

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